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24 de maio de 2016

QUE PAÍS É ESTE? #2 - A CORRUPÇÃO

PARTE I - A CORRUPÇÃO COMO TEATRO OU CORTINA DE FUMAÇA

Na introdução a esta série de textos eu usei a analogia do teatro. Poderia usar também a de cortina de fumaça.

Uma cortina de fumaça não é algo que não existe, mas é algo que não tem fim em si mesmo. É só um disfarce pra acobertar algo. E é um instrumento de ilusão, fuga e direcionamento. Pensemos num ninja usando uma bomba de fumaça. Você se preocuparia com a fumaça ou com o ninja que a lançou?

Não se interroga a fumaça, mas o ninja que a lançou, porque a fumaça não tem nada a dizer; no máximo, ela é um indício de que o ninja quer se esconder.

Da mesma maneira, o teatro não tem fim em si mesmo: ele pretende transmitir uma mensagem. Aí, devemos indagar não apenas a peça teatral, mas quem a produziu, com que intenções, para que público. Não se interrogam os personagens nem os elementos cenográficos do teatro, porque eles não têm voz própria; são criações.

É dessa maneira que eu proponho que investiguemos o fenômeno da corrupção, na ordem-do-dia em nosso país. Assim como uma cortina de fumaça, para mim, parece que a corrupção não é uma verdade absoluta, em si mesma, não é objeto unívoco, um dado "natural" da realidade; ela é um instrumento de ação política. E, assim como um teatro, ela visa a alguma coisa além de si mesma.

Isso significa dizer que a corrupção é ilusória e não existe, na realidade? Claro que não! Mas, embora ela exista, ela não é um autômato, não têm vida própria. Ela é, em primeiríssimo lugar, o discurso de alguém interessado numa mudança política – e, em segundo lugar, obra de alguém interessado em apropriar-se da riqueza pública. Vejam: a corrupção não é ela; ela é alguém. Foquemos no “alguém”, no interesse, na ação, na mudança.

Comecei esta série propondo também que a corrupção, ao contrário de ser um corpo estranho na política, FAZ PARTE DELA, É-LHE INERENTE, É UMA ENGRENAGEM DELA. Por trás da cortina do teatro, da cortina de fumaça, é esta a engrenagem que se oferece à nossa análise; é este o motor que devemos buscar compreender. A corrupção como dinâmica, como mecânica.

A princípio, ninguém, nem sequer os jornalistas e os cientistas políticos, entende a bagunça que se tornou o nosso cenário político, com tanto escândalo, tanta acusação, tanta delação premiada, tanta evidência, indício, prova, hipótese, possibilidade, achismo, opinião, desejo, projeto. Neste momento, eu acho que a filosofia, por seu ritmo mais lento, pausado e reflexivo, pode nos ajudar a encontrar uma escapatória neste vendaval de ideias, acontecimentos e palavras. A filosofia nos distancia dos fatos imediatos, cotidianos, das notícias, mas se nós já não conseguimos acompanhá-las, parece-me útil fazer essa pausa e nos aprofundar para além das manchetes diárias.

Mas superemos a cortina. Olhemos através dela. Como ação, a corrupção tem começo (nos sentidos de início e de motivação), meio (nos sentidos de desenvolvimento e de modus operandi) e fim (no duplo sentido de término e de finalidade). Aí eu acho que as coisas começam a fazer sentido. E é isso o que eu procurarei mostrar daqui em diante, na primeira parte desta série de breves ensaios.

Por ora, limito-me a frisar uma implicância de compreender a corrupção como ação política: no quadro dela, entendendo-a não como um fenômeno estático mas como um movimento, na sua trajetória, uma investigação - isto é, o combate e o controle da corrupção - só vai até aonde o interessado em conduzi-la quer, e na direção, no encalço de quem ele quiser. Não existe inquisição imparcial. A investigação contra a corrupção é, digamos, o instrumento pelo qual a própria corrupção pode, paradoxalmente, cumprir sua finalidade, que é a de interferir na política e mudar o poder. Ela pode ser iniciada por qualquer um, inclusive por um corrupto, bem como pode ser obstruída, controlada, exaltada ou censurada por qualquer um, inclusive alguém honesto. Só assim, entendendo a corrupção como uma ação política, é que compreenderemos como corruptos podem se apresentar como paladinos morais combatendo a corrupção, ou como acusações podem atingir qualquer pessoa indiscriminadamente, misturando inocentes e culpados e confundindo a opinião pública.

Porque, se a corrupção é uma ferramenta para se atingir uma outra finalidade, qual seja, uma troca no poder, o condutor da investigação, corrupto ou honesto, só se preocupará em apresentar à opinião pública um herói e um vilão, pois é assim que ele induzirá o apoio ou a repulsa da população a seus inimigos ou aliados. O investigador, longe de ser imparcial, conduz o combate a partir de sua própria fé e filiação política, não de julgamentos divinos. Neste sentido, seu objetivo primeiro é mudar o poder, não, afinal de contas, corrigir ou eliminar a corrupção - até porque, se ele o fizer, neutralizará a ferramenta que ele próprio tem para interferir na política em benefício próprio e de seu partido.

Quer uma prova disso? Observe todas as operações da PF contra a corrupção no Brasil, especialmente as mais recentes e, sobretudo, a Lava-Jato. Conte quantas vezes elas culminaram em prisões e isolamentos políticos de fulanos e ciclanos e quantas vezes elas atingiram o essencial para o país e para o patrimônio público, que são as reformas políticas e legislativas (que previnam ao invés de remediar a corrupção) e a restituição ao tesouro público daquilo que supostamente foi roubado, desviado, superfaturado ou privatizado.

Mesmo quando as sentenças dos juízes comportam sugestões e medidas como essas, não são elas que vão ocupar os noticiários. Porque o investigador (com a cumplicidade de uma mídia que, no Brasil, está longe de ser democratizada) não está interessado em proteger o bem público e neutralizar a corrupção; ele está interessado em neutralizar um adversário político. Por isso prender o corrupto é mais importante do que recuperar a riqueza roubada. Especialmente porque sendo o corrupto também um político - não um ladrão que fugirá imediatamente para gastar o que roubou - ele permanecerá interferindo na política se não for preso e exposto ao escracho público e, sendo ele um rival, o investigador não pode permitir isso; ele precisa neutralizar o agente, não o ato. É preciso que o ato, a corrupção, continue sendo possível e viável, porque é por meio dela que qualquer grupo político tomará ou conservará o poder, e é em nome do combate a ela que os investigadores poderão, sempre, agir em prol de seus interesses e partidos.

Em suma, no funcionamento de nossa política, infelizmente, gostemos e aceitemos ou não, é preciso que os corruptos sejam eliminados, mas que a corrupção permaneça livre para ser praticada. Ela só virá à tona quando um dos grupos nela envolvidos, por algum motivo, romper com o pacto de silêncio que torna todos os corruptos cúmplices entre si. Porém, enquanto essa aliança permanecer, enquanto ela encobrir os atos que privatizam o bem público (que é a definição mais antiga, geral e fundamental de corrupção) e permitirem que cada partido retire o seu "pedaço do bolo", isto é, o seu próprio benefício da corrupção do Estado, o fenômeno persistirá.

Continuarei desenvolvendo esses pontos nesta parte desta série. Aqui, por enquanto, a minha sugestão conclusiva é, na verdade, uma pergunta provocativa: quando o silêncio se rompe, se são os próprios corruptos a conduzir as investigações e se eles se beneficiam da corrupção, quererão eles acabar com ela ou apenas expor os atos dos adversários, enquanto encobrem os seus próprios, como um ninja que lança uma fumaça para se esconder e se mover em silêncio?

Partirei daqui no próximo texto.


7 de março de 2016

Que país é este? #1

É a “era da informação”. Somos bombardeados de informação.


Estamos todos conectados. É a “era da comunicação”.


A cada dia, nos jornais, um escândalo novo, uma nova operação da PF, um personagem novo. Não conseguimos montar sequer um quebra-cabeça com todas as peças que nos dão. Mas tudo bem: parece que nem a PF consegue.



Alguém se lembra de quem estava no banco dos réus há 3 meses? Qual era o teor da delação premiada de dezembro? Nem a PF se lembra.


Não importam os conteúdos, importam as performances. É tudo teatro. E na era da informação e da comunicação, o teatro é uma arma implacável.


Não está em jogo a corrupção; está em jogo o poder. Não interessa detetizar o Estado; interessa retomá-lo.


Recuperado o controle sobre o Estado, a corrupção não será abolida; ela será esquecida, escamoteada. De novo.


O teatro faz parecer que é tudo uma questão ética, de combate a vilões, que a solução está em tirar fulano ou ciclano do poder. A exploração exaustiva do argumento da corrupção forçosamente joga para o segundo plano as discussões que importam, fundamentais, crônicas: perto do protagonismo dado à Lava-Jato a Reforma Política, por exemplo, nem como coadjuvante aparece mais nos jornais e nas mesas de bar.


A cumplicidade da grande mídia com o teatro da corrupção inspira mais indignação que a própria corrupção. Porque se ela se tornou o 4º poder da República, que preze pelo mesmo valor que norteia os outros três: o progresso do país, não o conservadorismo. Se não se pode exigir dela (nem de ninguém) imparcialidade, esperamos dela, no mínimo, honestidade. Que as manchetes não sejam seletivas, que os crimes dos amigos não sejam acobertados (ainda bem que a internet nos deu imprensa independente!).


Já devíamos saber, mas parece que é preciso lembrar: não é que a corrupção, no Brasil, não exista; é que aqui ela não significa o mau uso do poder, aqui ela FAZ PARTE do poder. Ela SEMPRE foi parte INERENTE da política nacional. Sem ela, o sistema simplesmente NÃO funciona. Sem mensalões as câmaras legislativas não legislam. Sem loteamento dos cargos públicos e nepotismo coalizões NÃO são feitas. Sem desvio de dinheiro público obra alguma é executada. Sem enriquecimento ilícito projeto algum é aprovado.


Governabilidade: palavrinha mágica que, mesmo antipática, não pode ser ignorada. Ela é o coração da política. E a corrupção é o seu combustível.


O Estado é uma fonte de riquezas com as quais remunerar os aliados que garantem a governabilidade. Quem tem o Estado dá as cartas. Um partido apropriou-se dele e, há 13 anos, dá as cartas. Outros partidos estão cansados de se sentirem excluídos desse jogo ou de serem nele meros “decorativos” e querem dar eles próprios as cartas. Por que? Como? Com quais intenções? É isso o que precisamos discutir.


Controlar a massa é a chave pra vencer o jogo político. E é por isso que governar para ela é a maneira mais segura de manter o poder. Quem não quer fazer isso faz teatro e tenta entreter, distrair, manipular a massa. E, longe das câmeras, emprega a violência para controlá-la.


Mas para nós, massa, o que importa tudo o que os jornais noticiam sobre a corrupção? Nada! Não há esquemas sendo descobertos; há enredos, intrigas sendo criadas. Tomemos cuidado com o teatro.


O que podemos fazer, então, para escapar às táticas de controle?


Só consigo vislumbrar uma saída: esquecer o teatro e nos concentrar em nossas vidas. Ignorar a virtualidade das manchetes, sempre cheias de meias-verdades, de indícios dúbios tornados provas inquestionáveis, de delações “premiadas” (meu deus! Alguém consegue parar para pensar e perceber o quanto é perigosa essa ferramenta de investigação?), de fofocas, intrigas. E prestar atenção nos dados que nossas vidas nos oferecem. Tomar doses cavalares de realidade.

É isso o que eu tentarei fazer aqui, a partir deste texto: refletir sobre nossa política e sobre como seus elementos podem jogar com as nossas vidas.

18 de fevereiro de 2016

Sermões laicos #1

As pessoas sempre me perguntam: você tem religião? Você acredita em Deus ou algo parecido? E eu sempre respondo: nunca me preocupei com isso.

Minha resposta é honesta: de fato, nunca me preocupei com fé e religião. Por isso sempre tive pouco pra dizer a respeito. Mas quando examino devidamente minha memória, percebo que essa resposta esconde outros dois fatos...